Escassez de memória leva HP, ASUS e Acer a adotarem chips DRAM da chinesa CXMT

Notebooks com o componente ficam fora do mercado americano, mas o preço não cai; entenda o que muda para quem monta PC.

A CXMT deixou de ser plano de contingência e virou fornecedora cativa. HP, ASUS e Acer começaram a embarcar chips DRAM da fabricante chinesa em suas máquinas, segundo apuração da Nikkei Asia divulgada nesta terça-feira (4).

O uso é contido em três dimensões: são quantidades pequenas de chips, em um número limitado de modelos, e apenas em aparelhos destinados a mercados fora dos Estados Unidos.

A informação não foi confirmada oficialmente por nenhuma das três marcas. Em fevereiro, o Adrenaline noticiou que HP, Dell, Acer e ASUS estavam se aproximando da CXMT para entrar no processo de validação. O que mudou agora é que a homologação terminou.

O que a Nikkei apurou

Segundo as fontes ouvidas pelo jornal japonês, “muitas” grandes fabricantes de PC concluíram recentemente o processo de qualificação da DRAM da CXMT e passaram a usá-la em volume restrito.

Só a Acer respondeu ao pedido de comentário, a empresa não confirmou nem desmentiu.

“Mantemos contato próximo com múltiplos fabricantes e fornecedores globais”, afirmou a Acer, acrescentando que ajusta operações de forma dinâmica para lidar com variação de preço de componentes.

A cautela tem duas origens:

  1. A primeira é regulatória: a CXMT aparece em uma lista do Pentágono como empresa com vínculos militares chineses.
  2. A segunda é comercial, e talvez pese mais no curto prazo.

As fabricantes de PC não querem irritar Micron, Samsung e SK hynix, de quem ainda dependem para a maior parte do fornecimento.

Reprodução/CXMT

Por que a validação demorou tanto?

Qualificar um fornecedor de DRAM não é assinar contrato e receber a caixa. O chip precisa passar por testes de compatibilidade com controladores de memória, perfis de temporização, estabilidade térmica e ciclos longos de estresse antes de entrar em uma linha de produção.

A CXMT vinha esbarrando justamente nessa barreira, entrar no catálogo homologado de HP, ASUS e Acer é o tipo de credencial que abre portas no resto da indústria, e explica por que a Nikkei tratou o caso como vitória relevante para a companhia.

O ecossistema em torno já se moveu antes das fabricantes de notebooks. A Gigabyte anunciou suporte a memórias CXMT, a MSI liberou BIOS validando módulos chineses em até 8.200 MT/s em placas AMD, e a Corsair colocou chips da empresa em kits Vengeance DDR5.

Vale registrar a limitaçã que eles possuem tambem, pois a CXMT fabrica com um nó de processo defasado em relação ao das três grandes, o que resulta em consumo maior, menor margem de overclock e teto de desempenho mais baixo.

Não sai mais barato

Uma fonte da Nikkei afirmou que a DRAM da CXMT não é mais barata que a das concorrentes. Os preços de varejo na China confirmam isso.

Módulo RDIMM DDR5-5600 de 64 GB Preço na JD.com Conversão aproximada
Com chips CXMT CNY 18.999 R$ 14.283
Com chips Samsung ou SK hynix CNY 18.595 R$ 13.980

Os valores usam a cotação comercial de 4 de agosto de 2026 e não incluem impostos brasileiros nem taxas de importação. O módulo chinês sai mais caro que o coreano dentro da própria China.

O padrão se repete no varejo de consumo. A Lexar listou um kit DDR5 de 32 GB com silício chinês por CNY 3.999, cerca de R$ 3.006 em conversão direta.

A leitura que sobra é que a adoção não tem a ver com custo. Tem a ver com garantir alocação de chip, em um mercado onde a fila importa mais que a tabela de preços.

Washington de olho na operação

O movimento acontece sob observação política. Parlamentares americanos pressionam para incluir a CXMT na lista de entidades, restrição que a empresa vinha conseguindo evitar.

A Apple faz lobby na direção oposta, pedindo autorização do governo dos Estados Unidos para comprar chips da fabricante chinesa. A pressão vem do mesmo lugar: escassez.

Nesse tabuleiro, restringir notebooks com CXMT a mercados fora dos Estados Unidos é uma escolha de engenharia jurídica, não de logística. Mantém a operação viável sem expor as marcas a sanção retroativa caso a lista mude.

Reprodução/CXMT

O que isso muda para quem monta PC

Pouca coisa no curto prazo, e é aí que mora a frustração de quem esperava alívio pensando no mercado como um todo.

O preço da memória subiu mais de 400% em doze meses. As estimativas de mercado apontam que cerca de 70% da produção de DRAM está indo para o setor profissional, sobrando 30% para consumo. O presidente da Apacer projeta que o fornecimento de chips para fabricantes de módulos pode cair mais de 70% em 2027.

A chegada da CXMT ao catálogo das grandes marcas aumenta o volume disponível de componentes, mas não recompõe a oferta perdida para os data centers de inteligência artificial. E como a memória chinesa entra em notebooks fechados, e não em pentes avulsos vendidos no varejo, quem monta a própria máquina fica fora dessa distribuição.

O efeito colateral já aparece em outros produtos, a Microsoft elevou o preço do Xbox na Europa em até 200 libras citando escassez de componentes, e placas GeForce RTX 50 subiram até 30% na Coreia do Sul.

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Ausência de HBM no prospecto explica por que sobra chip

Um documento pouco comentado ajuda a entender por que a CXMT tem DRAM para vender enquanto o resto do mercado não tem. No prospecto do IPO em Xangai, a empresa não listou nenhum projeto de HBM, a memória de alta largura de banda que abastece aceleradores de inteligência artificial.

O grosso do investimento anunciado vai para linhas de produção e atualização de processo de DRAM convencional. Micron, Samsung e SK hynix seguiram o caminho oposto, migrando capacidade para HBM porque a margem é muito maior. Foi essa migração que criou o buraco no fornecimento de memória para notebook e desktop.

A CXMT ficou, por limitação técnica ou por escolha, no segmento que as três grandes abandonaram. O mercado premiou a aposta: a ação fechou o primeiro pregão em alta de 466% na estreia em Xangai.

Enquanto a empresa não tiver HBM competitiva, ela continua sendo a única fornecedora relevante com incentivo para brigar por contrato de memória de PC.

Fonte(s): Tom’s Hardware e Nikkei Asia

Fonte: www.adrenaline.com.br